sábado, 16 de abril de 2016

Entre lápis

David Sánchez Juliao
Tradução Camilla Felicori

Um dia, em uma fábrica de lápis para exportação, dois lápis conversavam:
- E por que fabricam aqueles colegas sem borracha?
- É porque eles vão para a América Latina.
- O que é isso?
- É uma terra distante onde ninguém reconhece seus erros.

Imagem: Laetitiablabla

Este texto faz parte do Almacosario, composto por 4 séries de fábulas que aludem não a animais, mas a objetos da atualidade, do escritor colombiano David Sánchez Juliao.
Veja mais na versão em espanhol do Almacosario.

Imagem: Oteo

A maçã

David Sánchez Juliao

Uma maçã, que havia sido expulsa de casa por estar podre, começou a zanzar pelo mundo e percebeu com o passar do tempo que não estava tão descomposta como diziam os outros, mas sim madura e que isso de ser vermelha, terna e doce era o estado natural das maçãs; e que a partir dele ela podia realizar-se na função de satisfazer e alimentar a Humanidade. "Claro -- pensou uma noite, com maturidade --, até a minha própria espécie caiu nas garras do aforismo e nas armadilhas do sofisma".

Tradução: Camilla Felicori

Imagem: Apple and Pear Australia Ltd

Este texto faz parte do Almacosario, composto por 4 séries de fábulas que aludem não a animais, mas a objetos da atualidade, do escritor colombiano David Sánchez Juliao.
Veja mais na versão em espanhol do Almacosario.

domingo, 10 de abril de 2016

Abismo

Situação limite:
eufemismo.
Podemos sempre
dar um passo a mais,
nem que seja em pensamento,
no caso de as pernas doerem.

Original

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Retrato XVII


Nessas noites quentes, a moça olha o céu
e procura as estrelas que nunca acha.

No quintal tem um pé de caqui.
Na janela, um cactus sem flores.

Mas a moça só percebe o escuro.
Nem mesmo o silêncio pode matar essa dor.

Original

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Álbum XIII

e você me diz [em silêncio] que não, isso não é possível;
e entre chuvas e cadarços eu vou GRITAR seu nome
como se fosse um sopro piano de uma ÚNICA nota afinada..
Sol... Sol...
E entre chuvas e lembranças eu pintei o sete,
o oito, em espanhol catalão português,
mas você não entende essa língua.
Você não fala mais
nada
e eu me deslumbro
com borboletas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Retrato XXVIII

A folha seca desbotou o verde.
O laranja marca a ausência
de tempo
para olhar
para o chão.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Gaveta

(ou da série: notas que escrevi e não entendo mais)

situação limite.
sentido geral que a palavra tem:: eufemismo

Releitura

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Frio I

Sentado sobre a pedra
Ele via o mar
Ele não via a pedra
Ele não via o céu
Apenas o mar
Monte de água
Salgada
O mar que esmigalha
A pedra na qual
Ele
Está sentado
Pouco a pouco
A pedra
Pouco o que resta
Da visão
Do homem
Da pedra
Do mar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Álbum XII

Eu canto. Coloco em xeque os seus mais doces sentimetos quando você me diz o que é a felicidade ou o momento presente. Te apresento o meu amigo silêncio para ver se ele nos ajuda a resolver as diferenças. Pode ser, um dia.

sábado, 4 de julho de 2009

Álbum XI

Abriu a caixa de fotografias. Não havia fotos, só negativos rotos. Na estante viu os álbuns: 93,94,97,98. Faltavam alguns anos para que ela se formasse em fotografia. Faltavam outros em sua memória.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Aída III

Ela não saíra do quarto desde que ele começara a preparar a mala. E dizia que assim a mala não fecharia, esse modo de dobrar as blusas não era a melhor forma de arrumar uma mala, melhor rolinhos com gominhas, assim caberia mais e sobraria mais espaço, e essas meias, não dá para deixar assim, todas soltas, e ia à área buscar um saquinho, em menos de dois minutos voltava. Ao fim ele fechou a mala sem dificuldade. Quando ele foi ao banheiro ela sentiu uma vontade imensa de chutar a parede, a mala, a cama e quebrar o abajour. Mas nada fez. Apenas desmontou o quebra-cabeça que eles demoraram algumas semanas para montar. Ele voltaria do banheiro e se perguntaria porquê, mas não diria a ela, com medo de que um ímpeto de fúria a atacasse. Achou melhor abraçá-la, a resposta dela foi empurrá-lo, como quisera fazer com a mala, a cama e... O empurrou e foi ao banheiro. Levou uma revista de viagens consigo, com bonitas fotos. A revista continuou fechada enquanto ela chorava lá dentro.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Aída II

Ele fechou a mala sentando-se em cima dela. Fechada a mala, não conseguia mais se levantar quando ela entrou no quarto com um sorriso tranquilo e triste. Ela o ajudou a levantar-se. E o abraçou. Ele chorou enquanto ela acariciava o seu rosto sem deixar cair uma lágrima. Ela o ajudou a carregar a mala.

domingo, 24 de maio de 2009

Aída I

Fechou as malas. Abriu a porta do quarto e abraçou-lhe com a pouca força que ainda lhe restava. Quando quis beijar-lhe, viu que suas lágrimas não eram únicas. Se abraçaram com vontade de não soltar jamais. Ainda faltava uma coisa para colocar na mala. Piegas, um coração.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Álbum X

Ele pediu para entrar. Você o deixou invadir sua estante. Ele lhe pediu um pouco mais de espaço. Então você tirou o seu violão para dar lugar às suas roupas, logo os seus casacos para dar lugar aos seus cremes, os seus livros para dar lugar aos álbuns e logo você para dar lugar a ele.

domingo, 3 de maio de 2009

Álbum IX

O desespero surgiu da bomba que ele sabia trazer no peito. Nesses momentos de ausência, de tudo que não é nada, do vazio da alma, do zero à esquerda, ele queria sumir.
Normal se sentir assim.