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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Retrato XVII


Nessas noites quentes, a moça olha o céu
e procura as estrelas que nunca acha.

No quintal tem um pé de caqui.
Na janela, um cactus sem flores.

Mas a moça só percebe o escuro.
Nem mesmo o silêncio pode matar essa dor.

Original

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Álbum XIII

e você me diz [em silêncio] que não, isso não é possível;
e entre chuvas e cadarços eu vou GRITAR seu nome
como se fosse um sopro piano de uma ÚNICA nota afinada..
Sol... Sol...
E entre chuvas e lembranças eu pintei o sete,
o oito, em espanhol catalão português,
mas você não entende essa língua.
Você não fala mais
nada
e eu me deslumbro
com borboletas.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Retrato XXVIII

A folha seca desbotou o verde.
O laranja marca a ausência
de tempo
para olhar
para o chão.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Retrato XXVI

Ele não conseguia dormir.
Ficava pensando nela em Pasárgada com ele.
Ele, eu digo, o outro. O nosso ele protagonista
é o que não faz parte, sofre a perda,
sente dor, quer chorar,
mas está seco.

Insone, fecha os olhos
e ouve o diálogo,
as vozes refletindo sorrisos, o beijo,
o sexo cru e fétido de dia inteiro,
a roupa de cama sem lavar,
as migalhas de pão e vinho ao lado
e o suspirar quase ofegante
dela.

Ele não vai
conseguir dormir enquanto souber que nesse minuto
ela suspira e se prende a ele, ali,
na janela ao lado,
ou Pasárgada.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Retrato XXIV

Desenvolveu um método para subir escadas olhando para frente como se caminhasse em direção ao par do baile. Logo decidiu que andaria assim, ponta dos pés, como se dançasse. O chão, cimento de areia. Pensando sempre no mar, ali perto, o par.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Retrato XXII

Ele dizia meia dúzia de vazios.
O metal do óculos refletia o entardecer.
Levantava a sobrancelha e dizia e dizia.
Ela sorria. Ele a chamava.
Ocaso, mais forte: ela desapareceu no ar.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Retrato XXI

11/01.21:56

Limpava os vidros da empresa todas as sextas-feiras às 19h, quando quase todos já estavam nos bares bebendo a happy hora. Esperava algum reconhecimento, mas pelo horário não recebia muitos sorrisos: era apenas ele, a bucha e o vidro. No começo temia a altura e que o cabo se rompesse. Mas ao fim ele já não se lembrava. E nada, era isso: trabalhar só pelos ares.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Retrato XVIII

28/11.19:33

Quando ele prestou atenção, viu na parede uma gota de poeira ruindo a ordem do ambiente. No um minuto que separou seu pensamento do ato de buscar um pano, constelações de fadas invadiram a sala trazendo pó mágico de pirlimpimpim. Quando voltou com o pano, viu a multiplicação de poeiras e limpou uma, duas, sete vezes, até que o pano ficou sujo de pó, a parede limpa e ele em completa harmonia com o seu lar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Retrato XVII

19/11.20:42

Nessas noites quentes, o menino olha o céu e procura as estrelas que nunca encontra.

No quintal tem um pé de caqui. Na janela, um cactus sem flores.

Mas para o menino só lhe toca o escuro.
Nem mesmo o silêncio mais forte pode matar essa dor.



(enxaqueca, me falou depois)

Refeito

sábado, 17 de janeiro de 2009

Retrato XVI

12/11.09:19

Do lado de cá ela pega a escova de cabelo, a escova de dente, a escova de lavar roupa e escova.

Do lado de lá ela abre o livro em chinês e tenta traduzir palavras sem conseguir construir frases.

Um dia ela vai ver: se misturasse laca criaria algo novo e lhe daria algum sentido. Surgiria uma unidade no fato concreto que só com construção poderia ser lido. Mas seria lindo.

Nesse momento do lado de lá ela deixou o texto e escova os cachos. Lava o texto. E constrói uns dentes fortes. Para quê? Não sei.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Retrato XV

07/10.17:01

Caminhou, quase correu, bateu na parede, gritou de dor e caiu, sentado no chão. Riu. Riu até que a garganta doeu. Começou a acariciar a parede len ta mente. Logo usou as unhas para fazer ruído. Mas estava a salvo. Ninguém o ouviria. Ali, mesmo o ruído mais áspero nada mais era que silêncio e secura.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Retrato XIV

18/09.16:08

Em uma cidade em que não há ruas nas árvores
o passar do tempo não diz do cair das folhas.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Retrato XIII

10/09.21:04
Debaixo da amoreira Maria colhia miozótis. Tinha formiga passeando por entre as folhas. Tinha gotinhas de chuva de ontem. Ela brincava com flores enquanto no fundo da casa eles gritavam. Assim aprendeu a falar cada dia mais baixo. Até que chegou um dia em que só as flores conseguiam ouvi-la.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Retrato XII

19/06.14:39

Por trás das grades vejo a menina que acabou de cair, empurrada por outra mais velha que continua batendo nela. As outras olham e se calam enquanto ela chora. Eu também vi e quis dizer qualquer coisa. Me aproximei da grade. A mais velha queria bater em mim também, eu senti, mas as grades que a protegiam do externo me protegeram dela. Disse então que eu não me intrometesse, que era a irmã dela. Naquele dia ela não bateu mais na irmã.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Retrato XI

10/06.21:05

O menino tem 12 anos. Gosta de carne moída com mandioca e de olhar para o céu quando há estrelas. Tem dias em que não há estrelas. Em outros, não há céu, só chão, duro. O corpo fica pesado nos dias assim. O menino tem medo do escuro.

Retrato X

07/06.10:53

Rosaura é florista. Ela gosta de rosas pelo motivo inútil de que essas flores combinam com o seu nome. Cada vez que alguém encomenda um buquê pela internet fica se perguntando porque será que as pessoas enviam flores, ou então por que escolheram os cravos e begônias ao invés de rosas. Geralmente ela se perde nesses pensamentos enquanto monta os arranjos, nenhum deles para ela.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Retrato IX

Ele estava sentado no ônibus sem ninguém perto. Se algum desavisado mirasse seus olhos, veria uma grande sorte de fugas, dores e desatinos. Mulheres que nadaram em seus braços e logo foram abandonadas. Famílias sem seus bens, desaparecidos por entre janelas. Do outro lado da pista está engarrafado. Mas tudo parece livre e possível para ele, que acaba de descer do ônibus. Na mão direita um pequeno papel com uma sequência de números, onde está - ele sorri - uma saída para a felicidade.

Retrato VIII

02/05.21:07

Sentado no bar, tomava um suco de uva sempre olhando para frente. As mãos seguravam o queixo, o olhar compenetrado em direção à parede, você poderia se perguntar, o que há do lado direito? Pois eu vejo que não há nada; nenhuma pessoa em especial que porventura ele pudesse estar esperando já sem ansiedade, impassível. Ele esperava ela, a torta de maçã, encontrá-la seria encontrar consigo mesmo, reviver momentos doces furando a torta enquanto esfriava na janela. Mas antes ele não pagava para ela nem por ela. A torta da avó.