terça-feira, 28 de abril de 2009

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Álbum VII

Sem querer ele a empurrou enquanto passava.
Não a viu cair, nem seus cacos pelo chão.
Hoje o copo não é de cristal como o de outrora.
Ele continua empurrando pessoas sem ver.
E ela trabalha com elásticos.

sábado, 11 de abril de 2009

Álbum VI

Eles construiram aquela caixa com pedaços de madeira que foram encontrando pelo caminho. Ele dizia a ela: faremos a caixa mais linda e firme nunca antes feita. Com a mão cheia de galhos, ela sorria. Hoje restam varetas envoltas com uma corda destecida.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Álbum V

Ele vai abrir a porta do carro para você sair, contida. Com toda elegância vai te oferecer um lenço bordado para você esquentar a garganta, tirar a camisa para você não pisar na gordura que respingou do almoço.

Só para você.

A tarde toda vendo vocês trocarem gentilezas. De volta à casa, caminhava tranquilo para escrever sobre essa leve harmonia. E então a vi na esquina. Indômita, tirava a elegante camisa para ele poder entrar.

domingo, 29 de março de 2009

Álbum IV

As frutas de cera,
A roupa limpa
com cheiro de amaciante,
A vasilha do cachorro
com resto de ração,
O detergente com glicerina,
O incenso de rosas brancas,

Nada disso vai mudar

A água suja
que você deixou.

terça-feira, 24 de março de 2009

Álbum III

Quando bateu no peito uma dorzinha à toa,
ela viu que precisava de um suspiro
ou de poesia.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Retrato XXVI

Ele não conseguia dormir.
Ficava pensando nela em Pasárgada com ele.
Ele, eu digo, o outro. O nosso ele protagonista
é o que não faz parte, sofre a perda,
sente dor, quer chorar,
mas está seco.

Insone, fecha os olhos
e ouve o diálogo,
as vozes refletindo sorrisos, o beijo,
o sexo cru e fétido de dia inteiro,
a roupa de cama sem lavar,
as migalhas de pão e vinho ao lado
e o suspirar quase ofegante
dela.

Ele não vai
conseguir dormir enquanto souber que nesse minuto
ela suspira e se prende a ele, ali,
na janela ao lado,
ou Pasárgada.

domingo, 1 de março de 2009

Álbum II

Nessa cidade seca,
o princípio de chuva
seria uma porta ABERTA
para a poesia

não fosse a roupa no varal.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Retrato XXIV

Desenvolveu um método para subir escadas olhando para frente como se caminhasse em direção ao par do baile. Logo decidiu que andaria assim, ponta dos pés, como se dançasse. O chão, cimento de areia. Pensando sempre no mar, ali perto, o par.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Retrato XXIII

Ela limpava a última mesa. Encontrou um guardanapo com telefone debaixo do copo de rum. Guardou na gaveta, junto com os outros. Mais uma série de números para jogar na loteria.