quinta-feira, 28 de maio de 2009

Aída II

Ele fechou a mala sentando-se em cima dela. Fechada a mala, não conseguia mais se levantar quando ela entrou no quarto com um sorriso tranquilo e triste. Ela o ajudou a levantar-se. E o abraçou. Ele chorou enquanto ela acariciava o seu rosto sem deixar cair uma lágrima. Ela o ajudou a carregar a mala.

domingo, 24 de maio de 2009

Aída I

Fechou as malas. Abriu a porta do quarto e abraçou-lhe com a pouca força que ainda lhe restava. Quando quis beijar-lhe, viu que suas lágrimas não eram únicas. Se abraçaram com vontade de não soltar jamais. Ainda faltava uma coisa para colocar na mala. Piegas, um coração.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Álbum X

Ele pediu para entrar. Você o deixou invadir sua estante. Ele lhe pediu um pouco mais de espaço. Então você tirou o seu violão para dar lugar às suas roupas, logo os seus casacos para dar lugar aos seus cremes, os seus livros para dar lugar aos álbuns e logo você para dar lugar a ele.

domingo, 3 de maio de 2009

Álbum IX

O desespero surgiu da bomba que ele sabia trazer no peito. Nesses momentos de ausência, de tudo que não é nada, do vazio da alma, do zero à esquerda, ele queria sumir.
Normal se sentir assim.

terça-feira, 28 de abril de 2009

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Álbum VII

Sem querer ele a empurrou enquanto passava.
Não a viu cair, nem seus cacos pelo chão.
Hoje o copo não é de cristal como o de outrora.
Ele continua empurrando pessoas sem ver.
E ela trabalha com elásticos.

sábado, 11 de abril de 2009

Álbum VI

Eles construiram aquela caixa com pedaços de madeira que foram encontrando pelo caminho. Ele dizia a ela: faremos a caixa mais linda e firme nunca antes feita. Com a mão cheia de galhos, ela sorria. Hoje restam varetas envoltas com uma corda destecida.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Álbum V

Ele vai abrir a porta do carro para você sair, contida. Com toda elegância vai te oferecer um lenço bordado para você esquentar a garganta, tirar a camisa para você não pisar na gordura que respingou do almoço.

Só para você.

A tarde toda vendo vocês trocarem gentilezas. De volta à casa, caminhava tranquilo para escrever sobre essa leve harmonia. E então a vi na esquina. Indômita, tirava a elegante camisa para ele poder entrar.

domingo, 29 de março de 2009

Álbum IV

As frutas de cera,
A roupa limpa
com cheiro de amaciante,
A vasilha do cachorro
com resto de ração,
O detergente com glicerina,
O incenso de rosas brancas,

Nada disso vai mudar

A água suja
que você deixou.

terça-feira, 24 de março de 2009

Álbum III

Quando bateu no peito uma dorzinha à toa,
ela viu que precisava de um suspiro
ou de poesia.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Retrato XXVI

Ele não conseguia dormir.
Ficava pensando nela em Pasárgada com ele.
Ele, eu digo, o outro. O nosso ele protagonista
é o que não faz parte, sofre a perda,
sente dor, quer chorar,
mas está seco.

Insone, fecha os olhos
e ouve o diálogo,
as vozes refletindo sorrisos, o beijo,
o sexo cru e fétido de dia inteiro,
a roupa de cama sem lavar,
as migalhas de pão e vinho ao lado
e o suspirar quase ofegante
dela.

Ele não vai
conseguir dormir enquanto souber que nesse minuto
ela suspira e se prende a ele, ali,
na janela ao lado,
ou Pasárgada.